Parece que foi ontem que estávamos todos de olhos apontados para o chão, parece que foi ontem que até medo de falar aparentávamos ter, parece foi ontem que os nossos joelhos eram os nossos pés e parece ainda também que foi ontem que nos chamaram de bestas e era isso que parecíamos. E os dias foram passando. Uns continuavam inibidos e como que numa corda bamba quanto à vontade de por ali permanecer. Outros desistiam mesmo. Houveram ainda os outros, que ali continuaram até ao fim. E hoje? Valeu a pena? Claro que sim.
Espírito académico. O famoso desemerdanço, tão útil nas semanas de exames, por exemplo. A amizade. O amor à casa onde estudamos e passamos grande parte dos nossos dias. O orgulho disso mesmo. A saudade do que já vivemos. A ânsia de viver os próximos acontecimentos. Os desafios que por aí vêm, e ainda os que já passaram. A diversidade e a união, sempre lado a lado como que num crescimento mútuo, ora saudável, ora nem por isso. Mas não interessa isso por agora.
Está a chegar o grande momento, a monumental serenata! Esse acontecimento tão solene, tão bonito, tão intenso. O momento em que a nossa capa vai ser, pela primeira vez nas nossas vidas, traçada. Não encarem isso como um momento lindo para as fotografias e para espalhar vaidade. Isso vai significar muito, vai significar tudo. Vai significar o fim de uma história e o começo de outra. A ligação de duas histórias irmãs. O fim do nosso ano de caloiros, o ano em que quase tudo nos deram a conhecer e quase tudo quisemos viver. O início da nossa vida enquanto doutores também começa. Ai este carrossel de emoções e sentimentos que nos comanda desde Setembro.
Amigos, trajem e gostem de trajar. E em cada momento que a capa vos aquecer os ombros, lembrem-se de todas as histórias que ela tiver e todas as que virá a ter também. Sim, porque quando isto tudo acabar vai também com isto os melhores anos das nossas vidas, ou muito me engano, eu e vocês. Aquela capa e aquela pasta. A capa como símbolo das noites de bebedeira e a pasta como símbolo das tardes passadas a estudar no desespero daqueles exames. Futurologia de intensas recordações passadas, ou um ataque de loucura dos meus neurónios. Pouco me importa que se discuta isso agora.
Vivam isto o mais que puderem, sempre sentindo o porquê de o fazerem, porque esta história foi, é e será escrita por nós e, no fim, terá o ponto final que lhe quisermos dar. E vejam bem a quantidade de coisas que já passamos e vivemos e que eu não mencionei aqui. Tudo, praticamente tudo!
Com alegria, amor e saudade, e uma bem mais do que simbólica lágrima no canto do olho, viva farmácia!
Sentes que o tempo acabou…




O pesar do sonho baixou pela noite fora. Toda a noite, a sua imagem insistiu-me pelos vidros da janela do meu quarto. A noite, em tom brilhante, avivava-me os sentimentos, liquidificando-me a consciência. A voz de Eddie Vedder balanceava-me na mente, em associação divina com a minha memória visual. O sono não vinha e eu, no meio dos lençóis como peixe fora de água, sentia-me vazio, com o sonho ali tão perto… Tardava em adormecer, ia sonhando, sonhando acordado. Procurava via consciente um sentido real para aquilo, mas acontece que, por vezes, por mais engenho que possuamos, é impossível dar base ao que sentimos. Àquela hora, via-me fora do contexto real do mundo, via-me numa estrada divina, numa busca infinita de um sonho recuperado, ainda mais forte que o anterior, bem mais intenso até. Afinal, o sonho era outro sim senhor. Mordia-me o medo de não o conseguir viver, e não adormecia.

